sexta-feira, 27 de maio de 2016

GAETANINHO
Alcântara Machado

- Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho Vem pra dentro.
Grito materno sim : até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
– Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar à direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
              Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza , rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO.
Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a Tia Filomena com mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, seu Rubinho, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.

O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
Agurizada assustada espalhou a notícia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Lá no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.

ESTUDO DO TEXTO

01. Qual era o sonho de Gaetaninho?

02. Segundo o texto, por que o sonho de Gaetaninho era de difícil realização?

03. Apesar de Beppino ter atravessado de carro a cidade, por que não era vantagem, segundo o texto?

04. Por que Gaetaninho ficou tão desapontado ao ser acordado pelo canto da Tia Filomena?

05. Por que Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho?

06. Qual a atitude de Gaetaninho diante da reação da tia?

07. Qual seria a provável razão para Gaetaninho escolher seu Rubinho para o lugar da tia no sonho?

08. Como a família reagiu diante do sonho de Gaetaninho?

09. Por que Vicente acusa Gaetaninho de estar atrapalhando o jogo?

10. O que aconteceu com Gaetaninho ao voltar para o jogo?

11. Qual a condição socioeconômica de Gaetaninho? Comprove com elementos do texto ou trechos.

12. Qual é o foco narrativo do conto e qual o tipo de narrador?





GABARITO
01. Andar de automóvel.
02. Porque a ralé quando muito andava de bonde e automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro ou casamento.
03. Porque ele tinha ido atrás da Tia Peronetta acompanhando seu enterro até o cemitério do Araçá.
04. Porque ele estava sonhando com que estava andando de automóvel sendo admirado pelas pessoas que estavam nas calçadas.
05. Porque no sonho Gaetaninho andava de automóvel acompanhando o enterro dela, o que poderia ser um mau agouro.
06. Gaetaninho passa a contar o sonho numa nova versão escolhendo o acendedor da Companhia de gás, seu Rubinho, para ser o defunto do sonho.
07. Porque seu Rubinho uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
08. A família ficou alarmada e os irmãos aproveitaram para apostar no bicho.
09. Porque ele estava conversando com Beppino sobre o enterro do pai do Afonso.
10. Foi atropelado pelo bonde quando correu para pegar a bola de meia arremessada que foi parar no meio da rua.
11. Gaetaninho fazia parte da classe baixa, operária. “Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde.” O personagem jogava futebol com bola de meia, o irmão trabalhava numa fábrica, os irmãos jogavam no bicho e as flores que cobriam o caixão de Gaetaninho eram pobres.

12. O foco narrativo é em terceira pessoa e o tipo de narrador é observador onisciente pois conhece os pensamentos e intenções íntimas dos personagens.

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