segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CASA DE PENSÃO, de Aluísio Azevedo - fragmento/ questões objetivas/ gabarito

CASA DE PENSÃO
Aluísio Azevedo

     Amâncio fora muito mal-educado pelo pai, português antigo e austero, desses que confundem o respeito com o terror. Em pequeno levou muita bordoada; tinha um medo horroroso de Vasconcelos; fugia dele como de um inimigo, e ficava todo frio e a tremer quando lhe ouvia a voz ou lhe sentia os passos. Se caso algumas vezes se mostrava dócil e amoroso, era sempre por conveniência: habituou-se a fingir desde esse tempo.
     Sua mãe, D. Ângela, uma santa de cabelos brancos e rosto de moça, não raro se voltava contra o marido e apadrinhava o filho. Amâncio agarrava-se-lhe às saias, fora de si, sufocado de soluços.
     Aos sete anos entrou para a escola. Que horror!
     O mestre, um tal de Antônio Pires, homem grosseiro, bruto, de cabelo duro e olhos de touro, batia nas crianças por gosto, por hábito do ofício. Na aula só falava a berrar, como se dirigisse uma boiada. Tinha as mãos grossas, a voz áspera, a catadura selvagem; e, quando metia para dentro um pouco mais de vinho, ficava pior.
     Amâncio, já na corte, só de pensar no bruto, ainda sentia calafrios dos outros tempos, e com eles vagos desejos de vingança. Um malquerer doentio invadia-lhe o coração, sempre que se lembrava do mestre e do pai. Envolvia-os no mesmo ressentimento, no mesmo ódio surdo e inconfessável.
     Todos os pequenos da aula tinham birra ao Pires. Nele enxergavam o carrasco, o tirano, o inimigo e não o mestre; mas, visto que qualquer manifestação de antipatia redundava fatalmente em castigo, as pobres crianças fingiam-se satisfeitas, riam muito quando o beberrão dizia alguma chalaça, e afinal, coitadinhas! Iam-se habituando ao servilismo e à mentira.
     Os pais ignorantes, viciados pelos costumes bárbaros do Brasil, atrofiados pelo hábito de lidar com escravos, entendiam que aquele animal era o único professor capaz de “endireitar os filhos”.
     Elogiavam-lhe a rispidez, recomendavam-lhe sempre que “não passasse a mão na cabeça dos rapazes” e que, quando fosse preciso, “dobrasse por conta deles a dose de bolos”.
     Ângela, porém, não era dessa opinião: não podia admitir que seu querido filho, aquela criaturinha fraca, delicada, um mimo de inocência e de graça, um anjinho, que ela afagara com tanta ternura e com tanto amor, que ela podia dizer criada com seus beijos – fosse lá apanhar palmatoadas de um brutalhão daquela ordem! “Ora! Isso não tinha jeito!”
     Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo em cima: Que deixasse lá o pequeno com o mestre!... Mais tarde ele havia de agradecer aquelas palmatoadas!
     Assim não sucedeu. Amâncio alimentou sempre contra Pies o mesmo ódio e a mesma repugnância.
(...)

01. A educação que Amâncio recebera do pai foi baseada
a) no respeito          b) no medo              c) no diálogo              d) no exemplo

02. É uma característica da personalidade de Amâncio conseqüente da educação recebida na infância
a) fingido               b) dócil                   c) amoroso                   d) mentiroso

03. A escola representou para Amâncio
a) a proteção contra a violência do pai.
b) uma experiência de vida diferente.
c) uma continuidade do tipo de educação recebida em casa.
d) uma oportunidade de aprender e de crescer saudavelmente.

04. Segundo as informações do trecho, as outras crianças da escola
a) apreciavam Antônio Pires.
b) implicavam com Amâncio.
c) eram antipáticas com o professor.
d) bajulavam Pires por temerem os castigos.

05. Na frase “não passasse a mão pela cabeça dos rapazes”, o uso das aspas, no texto, indica
a) reprodução de uma citação
b) presença de gíria
c) crítica de uma opinião
d) introdução de um diálogo

06.  No trecho “...não raro se voltava contra o marido e apadrinhava o filho”, o termo em destaque tem sentido de
a) patrocinar         b) proteger             c) autorizar                 d) favorecer

07. Os pais, que colocavam os filhos na mesma escola que Amâncio estudava, tinham a opinião de que Antônio Pires
a) era um pouco rígido demais com seus filhos.
b) era um mestre afetuoso e flexível no tratar com as crianças.
c) era além de violento, despreparado para ensinar as crianças.
d) era um mestre competente e capaz de educar bem as crianças.

08. O narrador menciona os sentimentos semelhantes que Amâncio nutria pelo pai e pelo mestre. Os sentimentos expressos no trecho que se referem apenas ao mestre são
a) ódio surdo e medo.
b) medo e malquerer doentio.
c) repugnância e desejo de vingança.
d) ressentimento e ódio inconfessável.

09. Em alguns momentos, o narrador expressa juízos de valor em relação aos personagens e fatos. Podemos observar isso em
a) “Os pais ignorantes, viciados pelos costumes bárbaros do Brasil...”
b) “Na aula só falava a berrar como se dirigisse uma boiada.”
c) “Amâncio agarrava-se-lhe às saias, fora de si, sufocado de soluços.”
d) “Nele enxergavam o carrasco, o tirano, o inimigo e não o mestre;”

Gabarito: 01. b 02. a 03. c 04. d 05. a 06. b 07. d 08. c 09.a

Um comentário:

  1. Olá, Cris. Adorei seu blog e já "favoritei" aqui. Obg por ajudar os amantes da educação. Espero que um dia (bem breve) todos reconheçam o verdadeiro valor de um(a) professora(a). Abraço.

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