sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida - trechos/ questões objetivas/ gabarito

     Os trechos a seguir são fragmentos dos capítulos I e II do livro.

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS
Manuel Antônio de Almeida

     Sua história tem pouca cousa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o que, uma certa Maria-da-Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra; levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
     Quando saltaram em terra começou a /Maria a sentir certos enojos; foram os dois morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.
     (...)
     Logo que pôde andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha a mão. Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo, se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os móveis, punha-lhe dentro tudo que o encontrava, esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa; até que a Maria, exasperada pelo que aquilo lhe havia de custar os ouvidos, e talvez às costas, arrancava-lhe das mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acalmava a dor das palmadas.
     Assim chegou aos sete anos.
     Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo começava a arrepender-se seriamente de tudo que tinha feito por ela e com ela. E tinha razão, porque, digamos depressa e sem mais cerimônia, havia ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que ele era atraiçoado. Havia alguns meses atrás tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava-lhe olhares curiosos através das rótulas: uma ocasião, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou sem mais novidade.
     Depois começou a estranhar que um certo colega seu o procurasse em casa, para tratar de negócios do ofício, sempre em horas desencontradas: porém isto também passou breve. Finalmente aconteceu por três ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capitão do navio em que tinha vindo de Lisboa, e isto causou-lhe sérios cuidados. Um dia de manhã entrou sem ser esperado pela porta adentro; alguém que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua, e desapareceu.
     À vista disso nada a duvidar: o pobre homem perdeu, como se costumava dizer, as estribeiras, ficou cego de ciúme. Largou apressado sobre um banco uns autos que trazia embaixo do braço, e endireitou para Maria com os punhos cerrados.
     - Grandessíssima!...
     E a injúria que ia soltar era tão grande que o engasgou... e pôs-se a tremer com todo o corpo.
     A Maria recuou dous passos e pôs-se em guarda, pois também não era das que se receava com qualquer cousa.
     - Tira-te lá, ó Leonardo!
     - Não chames mais pelo meu nome, não chames... que tranco-te esta boca aos socos...
     - Safe-se daí! Quem lhe mandou pôr-se aos namoricos comigo a bordo?
     Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição e o ciúme e a raiva de que se achava possuído transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa inútil de resistência, desatou a correr, a chorar e a gritar:
     - Ai... ai... acuda, Senhor Compadre... Senhor Compadre!...
     Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês e não podia largá-lo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Encolheu-se a choramingar em um canto.
     O menino assistira a toda essa cena com imperturbável sangue-frio: enquanto a Maria apanhava e o Leonardo esbravejava, ele ocupava-se tranquilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha largado ao entrar, e em fazer delas uma grande coleção de cartuchos.
     Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo pôde ver alguma cousa mais do que ciúme, reparou então na obra meritória em que se ocupava o pequeno. Enfureceu-se de novo: suspendeu o menino pelas orelhas, fê-lo dar no ar uma meia-volta, ergue o pé direito, assenta-lhe em cheio sobre os glúteos, atirando-o sentado a quatro braças de distância.
     -És filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta.

01. De acordo com a leitura do texto, todos os adjetivos a seguir podem ser atribuídos ao filho de Maria e Leonardo, exceto
a) desobediente         b) comilão                  c) travesso                     d) revoltado

02. No trecho “arrancava-lhe das mãos a vítima infeliz”, em destaque no texto, quem era a vítima infeliz?
a) Maria                    b) um chapéu             c) Leonardo                   d) um móvel

03. Qual das informações sobre o texto é falsa?
a) Leonardo e Maria conheceram-se numa viagem de navio.
b) O filho de Maria e Leonardo incomodava-se com a briga dos pais.
c) Maria tentava educar o filho através de palmadas.
d) Leonardo empregou-se quando chegou ao Brasil.

04. Leonardo tinha suspeitas de que era atraiçoado. No texto, quem não foi mencionado como uma desconfiança de Leonardo?
a) o sargento     b) seu colega de trabalho     c) seu compadre     d) o capitão do navio

05. No romance de costumes, o narrador coloca o leitor a par dos costumes da época. O trecho apresenta como um uso da terra
a) Perder o controle por ciúme.
b) Sair para a rua pela janela.
c) Enamorados mostrarem interesse através de pisadelas e beliscões.
d) Receber visitas do capitão do navio que fazia a rota Lisboa-Brasil.

06. De acordo com o texto, Maria-das-Hortaliças
a) Negou a traição da qual Leonardo a acusava.
b) Tentou fugir com o amante.
c) Arrependeu-se de ter traído Leonardo.
d) Enfrentou Leonardo ao ser flagrada, mas apanhou.

Gabarito:
01. d 02. b 03. b 04. c 05. c 06.  d

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