sábado, 20 de agosto de 2011

Inocência, de Visconde de Taunay - trecho/ questões objetivas/gabarito


Fragmento

     Estava Cirino fazendo o inventário da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira novamente a ele se chegou.
     - Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.
     - Assim é bem melhor, respondeu Cirino.
     E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôs-se de pé.
     Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava tocar em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.
     Afinal começou meio hesitante:
     - Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, muito amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto...
     - Por certo, concordou o outro.
     - Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e... deve postar-se como...
     - Oh, Sr. Pereira! Atalhou Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.
     Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.
     - Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... E já que não há outro remédio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... não metem vergonha a ninguém, com o favor de Deus; mas negócios da minha casa não gosto de bater língua... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões.
     - Ora muito bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
     - Ah! É casada? Perguntou Cirino.
     - Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para são Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o Sr. Conheça... o Manecão Doca...
(...)
     - Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam jururus e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias!... Ih, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Enfim, minha filha, enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O Manecão que se agüente, quando a tiver por sua... Com gente de saia não há que fiar... Cruz! Botam famílias inteira a perder, enquanto o demo esfrega um olho.
    Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos sertões e traz como conseqüência imediata e prática, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família e algum estranho.
(...)
     - Sr. Pereira, replicou Cirino com calma, já lhe disse e torno a dizer que, como médico, estou há muito tempo acostumado a lidar com famílias e a respeitá-las. É este meu dever, e até hoje, graças a Deus, a minha fama é boa... Quanto às mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoáveis nem de justiça. Entretanto, é inútil discutirmos porque sei que falou-me com toda franqueza, e também com franqueza quero responder. No meu parecer, as mulheres são tão boas como nós, se não melhores: não há, pois, motivo para tanto desconfiar delas e ter os homens em tão boa conta... Enfim, essas suas idéias podem quadrar-lhe à vontade, e é costume meu antigo a ninguém contrariar, para viver bem com todos e deles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguém queira arvorar-se em palmatória do mundo.
     Tal profissão de fé, expedida em tom dogmático e superior, pareceu impressionar agradavelmente a Pereira, que fora aplaudido com expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluência da frase.

01. Pereira autoriza Cirino a ver sua filha para
a) namorá-la           b) visitá-la            c) examiná-la               d) aconselhá-la

02. Por que Cirino não estranhou as desconfianças e recomendações de Pereira ao adentrar na casa do  pequeno proprietário de terra?
a) Porque ele já conhecia os costumes da região.
b) Porque já tinha sido avisado pelos outros.
c) Porque ele também era uma pessoa desconfiada.
d) Porque ele não tinha mesmo uma boa reputação.

03. De acordo com as informações do texto
a) Pereira costuma receber muitas pessoas em sua casa.
b) Pereira tem o hábito de falar sobre coisas da sua casa.
c) Pereira tem segredos vergonhosos sobre os quais não comenta.
d) Pereira prometeu a filha em casamento a alguém da região.

04. As mulheres representam para Pereira
a) uma benção          b) um problema            c) uma alegria              d) um consolo

05. Para Pereira, casar a filha é
a) uma obrigação         b) um sacrifício         c) desnecessário           d) impossível

06. “Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral corrente nos nossos sertões”, esse comentário foi feito pelo
a) Cirino                      b) Pereira                 c) Narrador                  d) Manecão

07. Segundo o texto, são conseqüências da visão preconceituosa e machista dos sertanejos com relação às mulheres, exceto
a) Elas são mantidas presas.
b) Os casamentos são convencionados.
c) Elas ficam ariscas.
d) Crimes são cometidos.

08. “... e é costume meu antigo a ninguém contrariar..., através desse trecho, conclui-se que Cirino
a) é uma pessoa indiferente.
b) é uma pessoa egoísta.
c) é uma pessoa acomodada.
d) é uma pessoa sensata.

Gabarito: 01. c 02. a 03. d 04. b 05. a 06. c 07. c 08. d
    

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