terça-feira, 9 de agosto de 2011

Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães - Trecho/ Questões Objetivas/ Gabarito

TEXTO: CAPÍTULO XIV

          Havia terminado a quadrilha. Álvaro ufano, e cheio de júbilo, conduzia o seu famoso par através da multidão, através de uma viva fuzilaria de olhares de inveja e de admiração, que se cruzavam em sua passagem; a pretexto de oferecer-lhe algum refresco, a foi levando para uma sala dos fundos, que se achava quase deserta. Até ali ainda ele não havia feito a Elvira uma declaração de amor em termos positivos, se bem que esse amor se estivesse revelando a cada instante, e cada vez mais ardente e apaixonado, em seus olhos, em suas palavras, em todos os seus movimentos e ações. Álvaro julgava já ter adquirido completo conhecimento do coração de sua amada, e nos dois meses durante os quais a havia estudado, não havia descoberto nela senão novos encantos e perfeições. Estava plenamente convencido que de todas as formosuras que até ali tinha conhecido, Elvira era em tudo a mais digna de seu amor, e já nem por sombras duvidava da pureza de sua alma, da sinceridade do seu afeto. Pensava, portanto, que sem receio algum de comprometer o seu futuro, podia abandonar o coração ao império daquela paixão, que já não podia dominar. Quanto à origem procedência de Elvira, era coisa de que nem de leve se preocupava, e nunca se lembrou de indagar. A distinção de classes repugnava a seus princípios e sentimentos filantrópicos. Fosse ela uma princesa que o destino obrigava a andar foragida, ou tivesse o berço na palhoça de algum pobre pescador, isso lhe era indiferente. Conhecia-a em si mesma, sabia que era uma das criaturas mais perfeitas e adoráveis que se pode encontrar sobre a  Terra, e era quanto lhe bastava.
          Observava Álvaro em seus costumes, como já sabemos, a severidade de um quaker, e seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado à formosa desconhecida, aninhando em seu espírito um pensamento de sedução.
          Naquela noite, pois o apaixonado mancebo, rendido e deslumbrado mais que nunca pelos novos encantos e atrativos, que Elvira alardeava entre os esplendores do baile, não pôde e nem quis dilatar por mais tempo a declaração , que a cada instante lhe ardia nos olhos, e esvoaçava pelos lábios, e apenas achou-se em lugar onde pudesse não ser ouvido senão de Elvira:
          - D. Elvira, - lhe disse com voz grave e comovida, - se a senhora é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deusa. O meu coração há muito já lhe pertence; sinto que o um destino de hoje em diante depende só da senhora. Funesta ou propícia, a senhora será sempre a minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor de uma fortuna considerável; tenho posição honrosa e respeitável na sociedade; mas não poderia jamais ser feliz, se a senhora não consentir em partilhar comigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.
          Estas palavras de Álvaro, tão meigas, tão repassadas do mais sincero e profundo amor, que em outras condições teriam caído como bálsamo celeste sobre o coração de Isaura e banhá-lo em inefáveis eflúvios de ventura, eram agora para ela como um atroz e pungente sarcasmo do destino, um hino do céu ouvido entre as torturas do inferno. Via de um lado um anjo, que, tomando-a pela mão com um suave sorriso, mostrava-lhe um éden de delícias, ao qual se esforçava por conduzi-la, enquanto de outro lado a hedionda figura de um demônio atava-lhe ao pé um pesado grilhão, e como todo o seu peso a arrastava para um gólfão de eternos sofrimentos.
(Guimarães, Bernardo – Escrava Isaura. Ed. Verdes Mares Ltda, Fortaleza-Ce, 1998 –p. 90-91)

01. De acordo com o texto, Álvaro conduz Elvira a uma sala sob penumbra para:
a) seduzi-la         b) escondê-la          c) declarar seu amor         d) protegê-la da multidão

02. Sobre o personagem Álvaro é falsa a informação:
a) Considera Elvira um enfeite e por isso exibe-a por entre a multidão.
b) Desconhece o passado de Elvira.
c) A cada dia apaixonava-se mais por Elvira.
d) Não temia comprometer seu futuro por causa dos sentimentos que nutria por Elvira.

03. Sobre Elvira, é correta a informação:
a) Era uma princesa.                        c) Na verdade chamava-se Isaura.
b) Tinha desprezo por Álvaro.         d) Mostrou-se interessada na fortuna de Álvaro.

04. A procedência misteriosa de Elvira em nada afeta os sentimentos que Álvaro nutre por ela, uma vez que ele a idealiza. Podemos observar isso no trecho:
a) “Álvaro ufano,e cheio de júbilo, conduzia o seu famoso par através da multidão...”
b) “ Fosse ela uma princesa [...] ou tivesse o berço na palhoça de um pobre pescador, isso lhe era indiferente.
c) “Álvaro em seus costumes [...] seria incapaz de abusar que havia inspirado à formosa desconhecida...
d) “Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras.”

05. Podemos observar o exagero  na caracterização dos personagens românticos em todos os trechos, exceto em:
a) “...era uma das criaturas mais perfeitas e adoráveis sobre a Terra...”
b)”...é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deusa.”
c) “...não havia descoberto nela senão novos encantos e perfeições.”
d) “... seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado à formosa desconhecida.”

06. Qual dos adjetivos a seguir não pode ser atribuído a Álvaro de acordo com esse trecho do livro?
a) apaixonado          b) rico          c) sincero         d) indeciso

07. Qual das informações está de acordo com o que nos apresenta o texto?
a) Contido, Álvaro esconde, por gestos e palavras, seu amor por Elvira.
b) Elvira não acreditou na declaração de amor de Álvaro.
c) Álvaro coloca seus sentimentos acima das convenções de natureza social.
d) Álvaro tenta subornar Elvira oferecendo-lhe dinheiro.

Gabarito: 1.c 2. a 3.c 4.b 5.d  6.d 7. c

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